BYD quer aumentar nacionalização dos carros no Brasil e mira liderança de mercado até 2030.

 

Apesar dos atrasos e desafios enfrentados na implantação da fábrica de Camaçari, na Bahia, a montadora chinesa BYD segue com planos ambiciosos para o mercado brasileiro. A empresa pretende alcançar 50% de conteúdo nacional nos veículos produzidos no país até o fim de 2026 e já trabalha com a meta clara de assumir a liderança do mercado automotivo brasileiro em volume de vendas até 2030.

A informação foi confirmada pelo vice-presidente sênior da BYD no Brasil, Alexandre Baldy, em entrevista à agência Reuters, concedida durante visita às instalações da futura unidade industrial baiana — que ocupa o antigo complexo da Ford, desativado em 2021.

Transição acelerada para a cadeia local

Segundo Baldy, a estratégia da BYD passa por uma rápida transição de uma operação fortemente dependente de importações para uma cadeia produtiva nacionalizada, com fornecedores brasileiros e produção local de componentes essenciais.

“Estamos fazendo essa transição o mais rápido possível. Nosso objetivo é integrar fornecedores nacionais, desenvolver a indústria local e reduzir a dependência de peças importadas”, afirmou o executivo.

A meta de 50% de conteúdo local inclui itens como:

  • Estruturas metálicas e carrocerias
  • Chicotes elétricos
  • Bancos e acabamento interno
  • Vidros, pneus e componentes plásticos
  • Parte do sistema elétrico e eletrônico

Num segundo momento, a montadora pretende avançar também sobre baterias, motores elétricos e sistemas de propulsão, hoje ainda fortemente concentrados na China.

Fábrica de Camaçari: símbolo e desafio

A escolha de Camaçari não é aleatória. A região tem tradição automotiva, mão de obra qualificada e infraestrutura herdada da antiga operação da Ford. Ainda assim, a implantação da fábrica enfrenta entraves.

Entre os principais problemas estão:

  • Adequações estruturais do antigo parque industrial
  • Licenças ambientais e urbanísticas
  • Formação e treinamento de mão de obra especializada
  • Logística para fornecedores ainda inexistentes no país

Mesmo com esses obstáculos, a BYD mantém o cronograma de iniciar a produção ainda em 2026, inicialmente com montagem de veículos elétricos e híbridos plug-in.

Preocupação da indústria nacional

A ofensiva da BYD ocorre em meio a crescentes preocupações da indústria automotiva brasileira, especialmente entre montadoras tradicionais e fabricantes de autopeças.

O receio do setor é que:

  • A entrada agressiva de marcas chinesas pressione preços
  • Haja concorrência considerada “desleal” com produtos importados
  • A nacionalização prometida demore mais do que o anunciado
  • Entidades do setor defendem regras claras de conteúdo local e políticas industriais que garantam equilíbrio competitivo.

A BYD, por sua vez, afirma que não pretende apenas vender carros no Brasil, mas sim construir uma base industrial sólida, com geração de empregos e desenvolvimento tecnológico.

Ambição declarada: ser líder até 2030

Talvez o ponto mais ousado da estratégia seja a meta declarada de liderar o mercado brasileiro em vendas até 2030 — superando gigantes como Volkswagen, Fiat, GM e Toyota.

Hoje, a BYD ainda ocupa uma fatia relativamente pequena do mercado total, mas vem crescendo rapidamente, impulsionada por:

Forte presença em veículos elétricos e híbridos

Preços competitivos

Avanço da eletrificação no país

Ampliação da rede de concessionárias

Modelos como Dolphin, Dolphin Mini, Song Plus, Yuan Plus e Seal já figuram entre os elétricos mais vendidos do Brasil.

Eletrificação como trunfo estratégico

Enquanto montadoras tradicionais ainda fazem uma transição gradual, a BYD aposta todas as fichas na eletrificação. A empresa é hoje:

Uma das maiores fabricantes globais de baterias

Líder mundial em veículos eletrificados (elétricos + híbridos plug-in)

Verticalizada, controlando boa parte da cadeia produtiva

No Brasil, a estratégia inclui:

Aumentar a produção local de veículos eletrificados

Reduzir preços com nacionalização e escala

Pressionar o mercado a acelerar a transição energética

Impacto econômico e regional


A fábrica da BYD em Camaçari promete:

  • Milhares de empregos diretos e indiretos
  • Reativação do polo automotivo baiano
  • Atração de fornecedores nacionais e internacionais
  • Aumento da arrecadação local e estadual

Governos estadual e federal veem o projeto como estratégico para a reindustrialização do país, especialmente no setor de mobilidade limpa.

Relação com o governo e incentivos

A expansão da BYD também se beneficia de:

Programas de incentivo à indústria verde

Políticas de descarbonização

Discussões sobre novo regime automotivo

Infraestrutura crescente de recarga elétrica

Ao mesmo tempo, o governo federal estuda medidas para equilibrar importações e estimular a produção local, o que pode acelerar ainda mais a nacionalização prometida pela empresa.

Riscos no caminho

Apesar do discurso confiante, há riscos claros:

Dependência tecnológica da China

Eventuais barreiras comerciais

Oscilações cambiais

Resistência do consumidor em massa

Infraestrutura elétrica ainda limitada em algumas regiões

A própria meta de liderança até 2030 é vista por analistas como extremamente agressiva, embora não impossível, diante da velocidade de crescimento da marca.

Um novo capítulo da indústria automotiva brasileira

A entrada definitiva da BYD como fabricante nacional marca uma mudança estrutural no setor automotivo brasileiro. Pela primeira vez em décadas, uma montadora estrangeira chega com:

Foco total em eletrificação

Capital robusto

Estratégia de longo prazo

Ambição explícita de liderança

Se conseguirá cumprir tudo o que promete, o tempo dirá. Mas uma coisa é certa: a BYD já alterou o jogo e forçou toda a indústria a se mexer.

Postagem Anterior Próxima Postagem

Mais do Portal ND1