Mas todo carro de entrada nasce de decisões de custo, e essas decisões deixam marcas. Se você está pensando em comprar um Kwid usado, ou já tem um na garagem e quer saber o que esperar, este guia reúne os defeitos mais comentados por donos, mecânicos e comunidades especializadas, explicando por que acontecem, como identificar e o que fazer.
Um aviso importante antes de começar: "defeito crônico" não significa que todo Kwid vai apresentar todos esses problemas. Significa que são queixas que aparecem com frequência suficiente para merecer atenção. Muitos carros rodam anos sem nenhuma dessas dores de cabeça, especialmente quando tiveram manutenção em dia.
1. Ruídos internos e barulhos na cabine
Se existe uma reclamação quase universal sobre o Kwid, é o ruído. O carro usa plásticos rígidos no painel e nas colunas, e o conjunto de encaixes sofre com a trepidação do dia a dia, principalmente em ruas ruins.
Os barulhos mais relatados são estalos no painel, rangidos nas portas, chacoalhos no porta-luvas e vibração em acabamentos laterais. Com o tempo e a quilometragem, os encaixes afrouxam e o problema piora.
O carro também tem isolamento acústico modesto. Motor de três cilindros, pneus de perfil alto e pouca manta de isolamento fazem a cabine ficar barulhenta em velocidades maiores, o que cansa em viagens longas.
Como lidar: muitos proprietários resolvem boa parte dos estalos aplicando feltro adesivo nos pontos de contato e fita de espuma nos encaixes. Em uma oficina de som automotivo, é possível instalar manta antirruído nas portas e no assoalho por um custo razoável.
2. Suspensão: batentes, buchas e amortecedores
A suspensão do Kwid é um dos pontos que mais geram visitas à oficina. O carro tem boa altura livre do solo, o que ajuda em ruas esburacadas, mas esse uso intenso cobra seu preço nos componentes.
Os itens que costumam desgastar antes do esperado são:
- Batentes e coifas dos amortecedores: quando ressecam ou racham, aparece uma pancada seca ao passar em lombadas e buracos.
- Buchas da bandeja e da barra estabilizadora: o desgaste causa estalos e folgas, e afeta a estabilidade.
- Amortecedores: vazamentos de óleo e perda de eficiência aparecem em muitos carros que rodaram muito em vias ruins.
- Pivôs e terminais de direção: podem desenvolver folga e gerar ruídos na esterçada.
Como identificar: ao passar por lombadas, preste atenção em batidas secas ou estalos. Em um teste de rua, faça curvas fechadas em baixa velocidade e escute rangidos. Um mecânico de confiança consegue verificar folgas rapidamente no elevador.
3. Direção elétrica e sensação de leveza excessiva
O Kwid usa direção com assistência elétrica, muito leve em manobras e na cidade. Essa leveza é uma qualidade para o uso urbano, mas algumas pessoas reclamam de falta de "sensação de estrada" em velocidades mais altas.
Há também relatos de ruídos na coluna de direção e, em casos mais raros, falhas intermitentes na assistência, com a direção ficando mais pesada de repente. Quando isso ocorre, o problema costuma estar no módulo de assistência, em conexões elétricas ou na tensão da bateria.
Como lidar: se a direção ficar pesada ou o painel acender o alerta correspondente, não ignore. Verifique primeiro a bateria e as conexões, que são as causas mais simples, antes de partir para a substituição de componentes caros.
4. Motor 1.0 de três cilindros: vibração, consumo de óleo e ruídos
A motorização 1.0 SCe de três cilindros é econômica e suficiente para a cidade, mas tem características que precisam ser conhecidas.
Vibração e rotação irregular: motores de três cilindros vibram mais do que os de quatro, e no Kwid isso é perceptível, principalmente em marcha lenta. Isso é característico do projeto, não necessariamente defeito. Mas se a vibração aumentar com o tempo, vale investigar velas, bobinas, bicos injetores e os coxins do motor.
Consumo de óleo: alguns donos relatam que o nível do óleo baixa entre as trocas, principalmente em carros com mais quilometragem ou que foram usados de forma severa, como em aplicativo. Verificar o nível a cada abastecimento é uma boa prática.
Ruídos no comando de válvulas: há comentários de barulhos metálicos em alguns motores, geralmente associados a óleo inadequado, trocas atrasadas ou desgaste de componentes do comando. A manutenção correta reduz muito esse risco.
Partida a frio com etanol: em dias mais frios, alguns usuários relatam demora para o motor pegar quando abastecido com etanol. Manter a bateria em bom estado e as velas em dia ajuda bastante.
Como lidar: use óleo na especificação indicada no manual, respeite os prazos de troca (ou antecipe-os se o uso for severo) e fique atento a qualquer ruído novo. Na compra de um usado, peça o histórico de revisões e confira o nível e a cor do óleo.
5. Câmbio manual e embreagem
O Kwid vendido no Brasil usa câmbio manual de cinco marchas, com engates que muitos consideram um pouco imprecisos ou emborrachados. Com o tempo, algumas unidades apresentam dificuldade para engatar determinadas marchas, principalmente a primeira e a ré, quando o carro está frio.
A embreagem, por sua vez, sofre bastante no trânsito pesado de cidades grandes. Carros que rodaram em trânsito intenso podem precisar trocar o kit de embreagem antes do que se imagina.
Sinais de desgaste da embreagem:
- Pedal muito alto ou com ponto de acoplamento diferente do original
- Motor acelerando sem o carro acompanhar (patinação)
- Trepidação ao sair com o carro parado
- Cheiro de queimado após subidas ou arrancadas
Como lidar: na hora de comprar, teste o carro em subidas e verifique se a embreagem aguenta uma arrancada sem patinar. Pergunte ao vendedor se o kit já foi trocado.
6. Sistema elétrico: bateria, alternador e fusíveis
Os problemas elétricos no Kwid são variados, mas alguns se repetem com frequência nos relatos:
Bateria descarregando: carros que ficam muitos dias parados ou que fazem somente trajetos curtos podem descarregar a bateria com facilidade. Em alguns casos, o problema está em consumo parasita, quando algum módulo ou acessório instalado depois mantém o sistema ligado.
Falhas em vidros elétricos e travas: em algumas unidades, os vidros ficam lentos, travam no meio do curso ou deixam de funcionar. Normalmente o problema está nos motores dos vidros, nos interruptores ou na fiação das portas, que sofre flexão constante.
Lâmpadas queimando com frequência: donos relatam troca frequente de lâmpadas, o que pode indicar variação de tensão ou conectores oxidados.
Como lidar: teste todos os vidros, travas, faróis, lanternas e o painel antes de comprar. Se a bateria for fraca, troque-a e verifique o alternador com um multímetro, pois uma bateria nova ligada a um alternador com defeito vai descarregar de novo rapidamente.
7. Central multimídia que trava ou reinicia
As versões com central multimídia, principalmente as mais equipadas, têm um histórico de reclamações com travamentos, reinicializações e lentidão. Alguns usuários relatam problemas de conexão Bluetooth, falhas no espelhamento de celular e telas que não respondem ao toque.
Muitas vezes, uma atualização de software resolve ou ameniza. Em outros casos, o problema está em uma unidade defeituosa que precisa ser reparada ou substituída.
Como lidar: procure uma concessionária para verificar se há atualização disponível, especialmente se o carro ainda estiver na garantia. Em usados fora da garantia, avalie se vale a pena trocar a central por um modelo de mercado.
8. Ar-condicionado e ventilação
O sistema de ar-condicionado do Kwid é eficiente para o tamanho do carro, mas há queixas sobre ruídos no compressor, perda de gás e fluxo de ar fraco depois de alguns anos.
O filtro de cabine é um vilão silencioso: quando fica sujo, reduz o fluxo de ar, causa mau cheiro e sobrecarrega o sistema. Muita gente esquece de trocá-lo.
Como lidar: troque o filtro de cabine periodicamente, faça higienização do sistema ao menos uma vez por ano e verifique se há vazamento de gás se o ar perder desempenho. Na compra, ligue o ar no máximo e confirme se gela rapidamente.
9. Pintura, lataria e ferrugem
O Kwid usa chapas relativamente finas, e a pintura de algumas unidades tem fama de ser frágil, principalmente em cores mais claras ou em carros que ficam expostos ao sol e à maresia. Relatos incluem manchas, descascamento do verniz e pequenos pontos de oxidação em regiões como a parte inferior das portas, a tampa do porta-malas e o assoalho.
Os plásticos externos, como para-choques e molduras laterais, também ressecam e desbotam com a exposição solar.
Como lidar: vistoria visual detalhada na compra, com atenção aos cantos das portas, soleiras e parte inferior. Em carros de regiões litorâneas, faça lavagem do assoalho e aplique protetivos. Cera e hidratante de plásticos ajudam a preservar a aparência.
10. Freios: ruídos e desgaste
O sistema de freios do Kwid, com discos na dianteira e tambores na traseira, é suficiente para o uso urbano, mas alguns pontos merecem atenção:
- Pastilhas dianteiras: o desgaste pode ser acelerado em carros usados em trânsito intenso ou em ruas íngremes.
- Ruídos e chiados: muitos donos relatam barulho ao frear, geralmente associado à qualidade das pastilhas ou ao acúmulo de poeira.
- Tambores traseiros: exigem regulagem e limpeza periódica para manter a frenagem equilibrada.
Como lidar: revise freios a cada revisão, use pastilhas de boa qualidade (evite as muito baratas) e troque o fluido de freio no prazo recomendado, em geral a cada dois anos.
11. Itens de segurança e recalls
Um ponto que merece atenção ao comprar um Kwid usado é a evolução dos itens de segurança ao longo dos anos. As primeiras versões tinham equipamento mais básico, enquanto as mais recentes ganharam mais airbags e assistências. Compare o ano e a versão com o que o vendedor promete.
Além disso, como qualquer modelo, o Kwid já foi alvo de campanhas de recall. Antes de fechar negócio, consulte o chassi do carro no site da Renault ou nos canais oficiais para saber se existem campanhas pendentes e se foram realizadas.
12. Porta-malas, acabamento e itens de uso cotidiano
Pequenos detalhes de acabamento também aparecem nas queixas: tampa do porta-malas sem abertura interna em algumas versões, maçanetas que folgam, tapetes que soltam, borrachas de vedação que ressecam e puxadores internos que quebram com o uso. Individualmente são problemas pequenos, mas somados criam a impressão de um carro menos robusto.
Como lidar: inspecione as borrachas de portas e vidros, teste todas as maçanetas e confira o estado do acabamento interno. Itens de reposição costumam ser baratos e fáceis de encontrar.
Como se proteger na hora de comprar um Kwid usado
Para reduzir o risco de levar uma surpresa desagradável, siga este roteiro:
- Peça o histórico de manutenção. Notas fiscais e carimbos de revisão são um bom sinal.
- Faça um test-drive variado. Rode em ruas ruins, lombadas, subidas e, se possível, em velocidade de estrada.
- Escute o carro. Barulhos de suspensão, estalos no painel e ruídos no motor dizem muito.
- Leve a um mecânico de confiança. Uma vistoria cautelar costuma custar pouco perto do prejuízo que pode evitar.
- Consulte recalls e débitos. Confira pelo chassi se há campanhas pendentes, multas ou restrições.
- Desconfie de preço muito baixo. Carros muito abaixo da tabela podem esconder histórico de uso em aplicativo, batidas ou manutenção negligenciada.
O Kwid é um carro ruim?
Seria injusto concluir que o Kwid é um carro ruim. Ele cumpre bem o que promete: custo de aquisição baixo, consumo contido, manutenção acessível e peças de reposição fáceis de encontrar. A rede de oficinas independentes que conhece o modelo cresce a cada ano, o que ajuda a manter o custo de manutenção sob controle.
O que ele não é: um carro de acabamento sofisticado, de isolamento acústico refinado ou de robustez comparável a modelos de categorias superiores. Quem entende isso antes de comprar tende a ficar satisfeito. Quem espera mais do que ele oferece costuma se frustrar.
A melhor forma de aproveitar o Kwid é comprá-lo com consciência, manter as revisões em dia, usar peças de boa qualidade e resolver os pequenos defeitos antes que virem grandes. Com esses cuidados, a maioria dos problemas listados aqui se torna administrável, e o carro pode ser um companheiro econômico por muitos anos.
Resumo rápido dos defeitos mais comuns
- Ruídos e estalos internos no painel e portas
- Desgaste de batentes, buchas e amortecedores
- Vibração e consumo de óleo no motor 1.0 de três cilindros
- Desgaste da embreagem em trânsito pesado
- Bateria descarregando e falhas em vidros e travas elétricas
- Central multimídia com travamentos
- Ar-condicionado com fluxo fraco ou ruídos
- Pintura frágil e oxidação em pontos específicos
- Ruídos e desgaste prematuro nos freios
Conhecer esses pontos é o primeiro passo para comprar bem e cuidar melhor do seu Kwid. Já teve algum desses problemas no seu carro? Conte sua experiência nos comentários e ajude outros leitores do Auto ND1 a tomar a melhor decisão.


