Principais Defeitos Crônicos do Mercedes Classe A 160/190 e Como Evitar Dor de Cabeça

Foto: Reprodução / Mercedes Classe A

Poucos carros causaram tanto burburinho quanto o Mercedes Classe A quando chegou ao Brasil, no fim dos anos 1990. Compacto, alto, espaçoso por dentro e com a estrela de três pontas no capô, ele prometia levar o luxo alemão a um público que nunca tinha cogitado um Mercedes. Montado em Juiz de Fora (MG), o modelo ganhou versões A160, com motor 1.6, e A190, com motor 1.9, ambos a gasolina.

Hoje, mais de duas décadas depois, o Classe A virou uma tentação no mercado de usados. O preço de entrada é baixo, o charme continua e o consumo urbano é razoável para um carro dessa categoria. Mas "barato de comprar" e "barato de manter" são coisas diferentes, e o Classe A é um daqueles carros em que a conta aparece depois. Neste guia, reunimos os defeitos que mais aparecem nos relatos de donos e oficinas, e o que fazer para não transformar o sonho da estrela em pesadelo.

Um Mercedes diferente de todos os outros

Para entender os problemas do Classe A, é preciso entender o projeto. A primeira geração (chamada internamente de W168) foi desenhada com uma arquitetura inovadora: piso em formato de "sanduíche", motor inclinado e pensado para deslizar sob o habitáculo em caso de colisão frontal, e uma carroceria curta e alta. Foi uma solução engenhosa, mas que deixou o carro pouco amigável para quem vai consertá-lo. A própria revista alemã Auto Bild, em avaliação de usados, apontou que o Classe A não foi concebido para facilitar o reparo, embora as peças sejam relativamente em conta para os padrões da Mercedes.

Também vale lembrar que o modelo nasceu sob suspeita. Depois do famoso "teste do alce", em 1997, a Mercedes revisou a suspensão e passou a equipar o carro com controle de estabilidade. Desde então, o Classe A se tornou seguro, mas o histórico de atualizações fez com que existam diferenças entre as unidades. Por isso, conhecer a versão e o ano do exemplar que você pretende comprar é metade do caminho.

1. Câmbio automático: o maior risco da conta

Se existe um ponto que concentra as reclamações em todo o mundo, é a transmissão automática. Em fóruns e sites de reclamações, o problema mais relatado nos A160 e A190 é justamente o do câmbio que não engata marchas ou falha de forma grave, com custos de conserto bem acima do que o carro vale. Uma especialista em transmissões listou como falha comum nesses modelos o problema na alavanca seletora, que acende a luz "F" no painel e causa trocas bruscas, com códigos de falha ligados à posição da alavanca.

O que torna o caso mais delicado é a eletrônica. Um especialista consultado por uma associação automobilística da Nova Zelândia explicou que o "cérebro" eletrônico do câmbio fica dentro da própria transmissão, o que transforma qualquer serviço numa intervenção grande, e que depois do reparo é preciso reprogramar o conjunto numa concessionária. Em outras palavras: mexeu, pagou caro, e nem todo mecânico de bairro consegue resolver.

Como evitar a dor de cabeça:

  • Prefira a versão manual se não tiver reserva financeira para um eventual conserto grande.
  • Se for comprar automático, faça o teste de rua com calma: trocas com tranco, demora para engatar e luz "F" acesa são sinais de alerta.
  • Peça o histórico de manutenção do câmbio. Troca de óleo em dia faz diferença.
  • Desconfie de carros "recém-saídos da oficina de câmbio" sem nota fiscal.

2. Eixo traseiro, suspensão e freios

O segundo ponto fraco aparece na parte de baixo do carro. Na avaliação da Auto Bild, depois de inspeções com três e cinco anos de uso, os defeitos no eixo traseiro foram apontados como pontos fracos bastante evidentes do Classe A. No Brasil, com asfalto castigado e lombadas por toda parte, essa fragilidade tende a ficar ainda mais evidente.

Os dados de inspeção técnica do Reino Unido ajudam a dimensionar o problema. Entre os A160 reprovados, os freios foram a principal causa de falha, seguidos de itens elétricos e iluminação e, em terceiro, a suspensão. É um retrato de carro que sofre com o desgaste do conjunto que absorve impacto e para o veículo, justamente os itens que mais pedem atenção.

Sinais para observar:

  • Barulhos secos ao passar em buracos (buchas, bieletas e batentes);
  • Carro "andando de lado" em retas, sinal de problema de geometria ou desgaste;
  • Pneus desgastados de forma irregular;
  • Pedal de freio longo ou com vibração.

Como evitar: faça revisão de suspensão a cada 20 mil quilômetros, troque amortecedores e buchas por peças de qualidade e alinhe e balanceie sempre que mexer em algo. Barato aqui sai caro.

3. Elétrica: pequenos defeitos que irritam

O Classe A tem fama de apresentar defeitos elétricos chatos, que raramente deixam o carro parado, mas que acabam com a paciência. Entre os mais citados:

  • Central de travamento e fechadura do porta-malas: relatos de donos apontam problemas na abertura da mala, ligada ao sistema de travamento das portas.
  • Limpadores de para-brisa: também aparecem como queixa comum, tanto o dianteiro quanto o traseiro.
  • Luzes internas: um anúncio de A160 à venda na Inglaterra descrevia luzes internas que ficavam acesas com o carro em movimento e se apagavam com o carro parado e trancado, algo provavelmente ligado ao travamento central.
  • Setas e lâmpadas: relatos de seta funcionando só para um lado.

Nenhum desses problemas é fatal, mas somados costumam gerar uma conta considerável na oficina, principalmente quando o diagnóstico é demorado. Para quem compra, o conselho é testar tudo antes de fechar negócio: vidros, travas, limpadores, setas, luzes internas, painel e ar-condicionado.

Como evitar: dê prioridade a unidades com bateria nova e boa qualidade de aterramento. Muitos defeitos elétricos nascem de tensão instável ou de mau contato.

4. Sensores e alimentação de combustível

A injeção eletrônica do Classe A é confiável, mas os sensores envelhecem. No mesmo anúncio inglês citado acima, o dono contava que a luz de injeção acendia com frequência, e a leitura de falhas apontava as sondas lambda antes e depois do catalisador como responsáveis, além de um sensor de nível de óleo que dava alertas falsos de vez em quando. Foi uma história individual, mas ela reflete um padrão: sensor com defeito acende luz e, às vezes, aumenta o consumo.

Outro ponto recorrente é a bomba de combustível. Em um levantamento de reclamações nos Estados Unidos, a falha da bomba de combustível aparece entre os problemas mais citados do A160, com conserto comparativamente barato. É a clássica falha que deixa o carro "morrendo" ou sem pegar, mas que se resolve sem drama.

Como evitar:

  • Abasteça em postos de confiança. Combustível ruim derruba bomba e sensores.
  • Troque filtro de combustível e velas dentro do prazo.
  • Não ignore a luz da injeção. Escanear o carro cedo costuma evitar um problema maior.
  • Se o sensor de óleo der falso alarme, confira a vareta antes de entrar em pânico.

5. Airbags, itens de segurança e o peso da idade

Por ser um carro com mais de vinte anos, o Classe A sofre com o desgaste natural de borrachas, plásticos, mangueiras e componentes de segurança. Entre as queixas de donos, os problemas com airbags aparecem como um dos mais comuns do modelo, geralmente com a luz de aviso acesa no painel. Nesse caso, não adianta apagar o aviso: o sistema precisa de diagnóstico, porque ele protege a sua vida.

Além disso, vazamentos, ressecamento de borrachas de portas e ruídos internos são comuns, e quanto mais tempo o carro ficou parado, maior a chance de surgirem.

Como comprar um Classe A sem se arrepender

Nenhum carro de vinte anos é bom comprado "no escuro". No caso do Classe A, vale seguir um roteiro:

  1. Escolha primeiro a versão. O A160 costuma ser a escolha mais equilibrada, enquanto o A190 entrega mais desempenho, mas é mais raro e pode exigir peças menos comuns.
  2. Procure o menor número de donos e o maior número de notas fiscais. Histórico de revisões vale mais que quilometragem baixa.
  3. Leve a um especialista antes de pagar. Uma avaliação com scanner e elevador custa uma fração do que um problema de câmbio ou de eixo pode custar.
  4. Teste a frio e a quente. Alguns defeitos só aparecem com o motor aquecido.
  5. Desconfie de preço muito abaixo da tabela. Barato demais costuma esconder funilaria, enchente ou câmbio no limite.
  6. Peça a documentação completa. Confira chassi, multas, alienação e, se possível, laudo cautelar.

Uma regra prática: reserve pelo menos 20% do valor da compra para "colocar o carro em dia" nos primeiros meses. Em um Mercedes dessa idade, é raro não haver nada a fazer.

Manutenção e peças: o segredo é a rotina

O Classe A perdoa pouco quem negligencia. Algumas práticas ajudam a manter o carro saudável:

  • Óleo e filtros: respeite o prazo e use o óleo indicado no manual do proprietário.
  • Fluido do câmbio: em versões automáticas, não ignore a troca, mesmo que o fabricante venda o fluido como "de vida longa".
  • Freios: inspeção a cada revisão, com atenção especial a discos, pastilhas e fluido.
  • Suspensão: troque as peças aos pares e alinhe depois do serviço.
  • Bateria: mantenha-a nova. Em carros com muita eletrônica, bateria fraca é fonte de defeitos fantasmas.

Sobre peças, o mercado brasileiro oferece três caminhos: a concessionária (original, mais cara), o mercado paralelo de qualidade (marcas reconhecidas, boa relação custo-benefício) e as peças usadas de desmanche. Em itens de segurança, como freios e suspensão, não vale economizar. Já em itens de acabamento, o desmanche pode ser uma boa saída.

Mais importante que a peça é o mecânico. Procure uma oficina especializada em Mercedes, de preferência com scanner compatível, e que aceite mostrar o diagnóstico antes de orçar. Fóruns e clubes de proprietários costumam indicar profissionais de confiança.

Vale a pena ter um Classe A hoje?

Vale, desde que você entre no negócio de olhos abertos. O Classe A 160/190 é um carro charmoso, confortável para a cidade e com uma proposta interessante para quem quer um Mercedes sem gastar muito na compra. Mas ele cobra seu preço: câmbio automático problemático, eixo traseiro sensível, elétrica caprichosa e uma construção que complica o conserto.

A fórmula para evitar dor de cabeça é simples, embora exija disciplina: escolher bem a unidade, de preferência manual e com histórico documentado; fazer uma vistoria especializada antes de fechar; manter reserva para os primeiros reparos; e seguir a manutenção preventiva sem atraso. Quem faz isso costuma ter um carro divertido e econômico. Quem compra pelo preço e ignora o resto, geralmente aprende do jeito caro.

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