O Salão de Detroit 2026 mostrou, logo de cara, que algo havia mudado no rumo da indústria automobilística. Depois de anos dominados pelos carros elétricos, a edição deste ano foi marcada por uma presença tímida dos modelos 100% movidos a bateria e, em contrapartida, pela força renovada de picapes, SUVs e esportivos com motores a combustão.
Quem circulou pelos pavilhões percebeu que os elétricos perderam protagonismo. O que ocupou o centro dos estandes foram veículos grandes, robustos e barulhentos, como o consumidor americano sempre gostou.
Mercado deu sinais claros
Essa virada não veio do nada. Em 2025, o crescimento dos veículos elétricos nos Estados Unidos foi de apenas 1% em relação a 2024 — um número bem abaixo dos anos anteriores. Para completar, gigantes como a Tesla enfrentaram queda de 8,5% nas vendas globais, acendendo o alerta no setor.
O cenário político e econômico também pesou. Incentivos federais que garantiam até US$ 7.500 em subsídios para a compra de elétricos foram reduzidos ou extintos, tornando esses modelos menos competitivos em preço. O impacto foi direto nas decisões das montadoras, que passaram a rever contratos com fabricantes de baterias e reduzir investimentos em eletrificação pura.
Montadoras adotam discurso mais pé no chão
Ford e General Motors chegaram ao Salão de Detroit em clima de ajuste fino. Após investir bilhões em projetos elétricos que não trouxeram retorno imediato, as empresas passaram a adotar um tom mais pragmático. A eletrificação segue nos planos, sim, mas sem aquela pressa quase ideológica dos últimos anos.
Agora, o foco está em equilibrar portfólio, custos e lucro — como sempre foi feito na indústria.
Exemplos que falam por si
Um dos casos mais simbólicos é o da Ford F-150 Lightning, que deixou de ter versão totalmente elétrica e passou a adotar uma configuração com autonomia estendida, usando motor a combustão como gerador.
Outro exemplo é o do Dodge Charger, que em 2023 havia aposentado os motores a gasolina para apostar só em elétricos, mas voltou atrás em 2025 e reintroduziu versões a combustão. A decisão foi tão acertada que o modelo levou o prêmio de Carro do Ano 2026 no próprio Salão de Detroit.
Poucos elétricos e muitos motores tradicionais
Nos estandes, a mudança ficou escancarada: nada de elétricos ocupando posições centrais. O evento foi dominado por picapes gigantes, SUVs parrudos e esportivos tradicionais — exatamente o que ainda sustenta o caixa das marcas no mercado americano.
Entre os elétricos apresentados, apenas dois chamaram atenção: o Corvette CX Concept e o Cadillac Elevated Velocity, ambos ainda em fase conceitual, sem data para chegar às ruas.
Mudança de rota, não abandono
O Salão de Detroit 2026 não marca o fim da eletrificação, mas sim uma pausa estratégica. A indústria reconhece que a transição energética não acontece em linha reta e que o consumidor americano tem seu próprio ritmo, prioridades e limitações.
Por enquanto, o ronco dos motores a gasolina voltou a ecoar forte nos corredores de Detroit — como nos velhos tempos.